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09 junho 2012

AOS VIVOS

AOS VIVOS
Bernardo Vilhena


Não gosto dos mortos sérios respeitáveis.
Sou mais chegado aos mortos escrachados debochados que riram muito de tudo
de todos e muito mais de si mesmos
Gosto de mortos que aproveitaram a vida arriscaram a vida trataram-na com desdém
Gosto dos mortos que amaram mulheres amigos, vinho e poesia
Gosto dos mortos que viveram e deixaram viver.
Saíram do sufoco sem sufocar ninguém
Gosto dos mortos que fizeram da vida um aprendizado
viveram o presente flertaram com o passado e lutaram para tornar menos duro o tal do futuro
Gosto dos mortos que foram otários ficaram por cima ficaram por baixo tiraram onda foram capachos
sem se importar com o disse me disse com o acho não acho.
Gosto dos mortos que fizeram do riso uma arma da música um bálsamo da palavra um aviso
Gosto dos mortos vivos não imortais, não zumbis mas aqueles que cada um de nós
guarda com carinho uma frase uma expressão de face um conselho de amigo.
Gosto dos mortos que enfrentaram perigos venceram desafios
perderam feio e ganharam bonito que nos ensinaram a perdoar, a conviver a libertar
Gosto dos mortos que nos livraram dos medos dos preconceitos, da miséria da ignorância
Gosto dos mortos modernos que nos fizeram perder o medo do inferno que transformaram tentação em sensação como se o alfabeto recuasse uma casa e a vida avançasse duas
Gosto dos mortos ativos que nos ensinaram a ficar vivos mesmo que estejamos pobres
sozinhos, deserdados.